O Brasil não é um brinquedo. A soberania não é negociável


Estudei em escola pública durante o ensino fundamental, tive bolsa de estudos no ensino médio e nas minhas duas graduações. Minha primeira pós-graduação foi na Universidade Federal de Goiás.
Meus pais foram servidores públicos e vivenciaram os extremos daquilo que o Estado pode fazer com seus próprios servidores. Presenciei situações em que precisaram tirar dinheiro do próprio bolso para consertar veículos antes de uma viagem, evitando que a equipe corresse riscos nas estradas. Também vi meus pais comprarem alimentos para equipes de uma escola que, durante dias, não tinham sequer uma refeição digna.
Participei de inúmeras campanhas políticas ao longo da minha trajetória. Por isso, assistir a um comportamento infantil em um debate eleitoral me faz questionar se determinado candidato tem o preparo e a maturidade necessários para ocupar a Presidência da República.
Não podemos permitir que alguém trate o nosso país como um brinquedo, colocando em risco tudo aquilo que foi construído ao longo de décadas.
Vi prefeituras receberem equipamentos, recursos públicos e profissionais independentemente de suas orientações políticas. Vi adversários aceitarem derrotas com dignidade e exercerem seu papel de oposição dentro das casas legislativas. Pessoas com visões diferentes sobre o futuro do Brasil, mas que compreendiam que as divergências deveriam ser resolvidas dentro das regras democráticas e dos limites estabelecidos pela lei.
Vi projetos sociais nascerem para oferecer à população oportunidades de crescimento. Vi governos de diferentes orientações políticas darem continuidade a iniciativas de seus antecessores e também criarem novos projetos. Mas vi, igualmente, programas essenciais serem interrompidos sem justificativas convincentes e grandes talentos deixarem o nosso país por não encontrarem o reconhecimento e as oportunidades que mereciam.
Também vivi uma pandemia em que o presidente da República minimizou a gravidade da situação, incentivou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada para o tratamento da Covid-19, imitou pessoas com falta de ar e demorou a viabilizar a aquisição de vacinas. A compra de imunizantes foi cercada de controvérsias, enquanto o país enfrentava uma emergência sanitária que exigia responsabilidade, ciência e compromisso com a vida.
Vi esse mesmo presidente utilizar um tripé de câmera para imitar uma metralhadora. Vi um símbolo nacional ser associado a um projeto político particular, como se as cores da nossa bandeira pertencessem a um grupo e não a todos os brasileiros.
Vi promessas vazias que, até hoje, ecoam de maneira ensurdecedora justamente porque nunca se transformaram em realidade.
Vi questionamentos sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas, um sistema utilizado durante décadas, inclusive para eleger integrantes da própria família do candidato. A desconfiança passou a ser propagada com intensidade quando os resultados eleitorais deixaram de favorecer seus interesses. A contradição é evidente: o sistema era aceito quando produzia vitórias, mas se tornava suspeito quando produzia derrotas.
Agora, em 2026, chegamos a um momento decisivo. Precisamos escolher se queremos preservar a soberania do Brasil, a estabilidade das nossas instituições e o respeito à democracia ou se estamos dispostos a correr o risco de entregar o futuro do país a um projeto político que desperta tantas preocupações.
Precisamos refletir sobre o que pode acontecer caso o filho de um ex-presidente assuma o comando do país, considerando os acontecimentos dos últimos anos, as investigações, os fatos conhecidos e os documentos que vieram a público. É fundamental, contudo, distinguir fatos comprovados, acusações, investigações arquivadas e decisões judiciais, sem ignorar que a responsabilização deve obedecer ao devido processo legal.
Ao observar o histórico desse candidato e as propostas associadas ao seu campo político, fico cada vez mais preocupado com o caminho que o Brasil poderá seguir.
Há promessas de endurecimento penal que precisam ser confrontadas com a legislação já existente e com os resultados concretos das políticas de segurança pública. Há, também, preocupações relacionadas à possibilidade de mudanças profundas na Constituição Federal, inclusive por meio de propostas de convocação de uma Assembleia Constituinte.
Outras ideias merecem debate sério, como a substituição de servidores concursados por inteligência artificial, proposta que, segundo declarações atribuídas a uma possível integrante da equipe econômica, teria sido defendida publicamente em um podcast. A discussão também alcança a estabilidade dos servidores públicos, uma garantia institucional que, dentro dos limites legais, contribui para proteger o exercício da função pública contra pressões políticas indevidas.
Não podemos permitir que o medo de reviver os erros do passado, como os que marcaram o governo Collor, seja substituído pela aceitação de novos riscos. Tampouco podemos ignorar as experiências internacionais que merecem ser analisadas criticamente, sejam elas na Argentina contemporânea ou em regimes autoritários que marcaram tragicamente a história, como os de Hugo Chávez e Adolf Hitler.
Comparações históricas exigem responsabilidade. Não se trata de afirmar que experiências distintas são idênticas, mas de reconhecer que a concentração de poder, o enfraquecimento das instituições e o desprezo pelas regras democráticas devem sempre servir de alerta.
Por isso, afirmo: a bandeira brasileira não será vermelha, muito menos preta. Ela continuará sendo verde, amarela, azul e branca.
Essas cores não pertencem a um partido, a um candidato ou a uma ideologia. Pertencem a todos nós.
O Brasil deve continuar sendo uma nação livre, soberana, segura em suas instituições e respeitada por seus parceiros internacionais. Um país que dialogue com o mundo sem abrir mão de sua autonomia, que estabeleça relações comerciais sem se submeter a interesses estrangeiros e que compreenda que patriotismo não significa obedecer cegamente a um líder, mas defender os princípios que sustentam a nossa nação.
Pelo juramento que fiz nas minhas duas graduações, especialmente no curso de Direito, reafirmo meu compromisso com o Brasil, com a Constituição Federal, com a soberania nacional e com as instituições democráticas.
Ser patriota não é apenas vestir as cores da bandeira, empunhá-la em manifestações ou repetir palavras de ordem. É defender o país inclusive quando isso exige contrariar aqueles que afirmam falar em seu nome.
Eu amo o Brasil. E é justamente por isso que não aceito que sua história, suas instituições e seu futuro sejam tratados como propriedade de um grupo político ou como instrumento de ambições pessoais.
Viva o Brasil! Viva a liberdade! Viva a democracia! Viva a soberania nacional!


